Ser humano não é transtorno: a saúde mental no trabalho além dos diagnósticos
- Verbe Suporte Emocional

- 27 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Porque a psicoterapia psicanalítica é um espaço de transformação para quem sofre mesmo sem estar doente.
Resumo Executivo
A expressão “transtorno mental” tem sido amplamente utilizada quando o assunto é a importância do cuidado com a saúde emocional, seja nas empresas, nos esportes ou no nosso dia a dia.
Esquece-se, entretanto, que as pessoas podem viver sob intenso sofrimento psíquico sem apresentar qualquer transtorno mental: ansiedade, tristeza, culpa, perda de sentido, medo de errar, solidão, raiva, frustração, entre muitos outros, são todos sentimentos humanos que não necessariamente configuram uma doença ou um transtorno.
De acordo com o DSM-V, transtorno mental é “uma síndrome caracterizada por uma perturbação clinicamente significativa na cognição, na regulação emocional ou no comportamento de um indivíduo, que reflete uma disfunção nos processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento que sustentam o funcionamento mental” (tradução livre, grifos nossos).
Muitos sentimentos que nos provocam sofrimento podem ser sinais de início de um problema mais sério, que, se não tratado adequadamente, pode evoluir para um transtorno mental, mas, em grande parte das vezes, tais sentimentos não constituem uma “disfunção nos processos psicológicos” do sujeito.
Pelo contrário, muitos deles demonstram um comportamento funcional e saudável do nosso psiquismo: assim como a perda de um ente querido provoca uma tristeza mais prolongada conhecida como luto, um profissional submetido a condições estressantes ou precárias de trabalho irá se sentir ansioso, desmotivado e/ou frustrado.
Nesse contexto, grande parte dos sofrimentos humanos não demandam cura ou medicalização, mas um espaço onde possam ser descortinados e elaborados. Assim, a psicoterapia, especialmente a psicanalítica, não é apenas uma ferramenta de tratamento clínico, mas um processo de autoconhecimento profundo que permite ao sujeito compreender o que, dentro de si, produz impasses, angústias e repetições — ampliando sua capacidade de pensar, decidir, criar e viver mais plenamente.
Sofrimento não é sinônimo de transtorno
Na cultura contemporânea — e especialmente no ambiente corporativo — a dor psíquica é frequentemente interpretada como falha: “estou ansioso, logo estou doente”. Mas a psicanálise parte de outra lógica: o sofrimento é um sinal de vida psíquica, não um defeito.
Todo líder vive tensões entre desejo e dever, liberdade e responsabilidade, ganhos e perdas. Quando essas forças entram em conflito, o resultado pode ser mal-estar, cansaço, irritabilidade, insônia ou culpa. Nenhum desses sentimentos, isoladamente, indica patologia. Eles são linguagens do inconsciente — expressões de algo que o sujeito ainda não conseguiu simbolizar.
A psicoterapia psicanalítica oferece um espaço singular: um lugar para pensar o impensável. Como propôs Bion, o terapeuta funciona como um “aparelho para pensar pensamentos” — ajudando o paciente a transformar emoções brutas em pensamento elaborado. Quando um sentimento pode ser pensado, ele deixa de paralisar e passa a organizar: a ansiedade, por exemplo, pode se tornar energia criativa; a culpa, bússola ética; a solidão, espaço de integração e visão.
Muitos executivos e profissionais com grande carga de responsabilidade chegam à psicoterapia não porque estejam doentes, mas porque algo dentro deles parou de fazer sentido. Podem estar performando bem, mas sentem vazio, isolamento ou se incomodam com a repetição de padrões. A escuta psicanalítica não busca eliminar esses afetos, mas dar-lhes forma, linguagem e direção.
Freud, em O Mal-Estar na Civilização (1930), descreve o sofrimento como parte estrutural da condição humana — resultado do atrito entre os desejos individuais e as exigências da cultura. Na vida corporativa, esse conflito se intensifica: o ideal de alta performance muitas vezes se choca com as limitações humanas de tempo, energia e vínculo.
A fronteira entre sofrimento e patologia está na proporcionalidade e simbolização. Um executivo que sente medo antes de uma decisão estratégica vive uma emoção legítima; mas quando esse medo se repete sem contexto, imobiliza ou gera culpa desmedida, o sofrimento perde sua função simbólica e se transforma em sintoma.
A psicoterapia psicanalítica trabalha precisamente nesse ponto: não rotula, mas escuta. Não classifica, mas compreende. E é nesse processo que o sujeito reencontra sua própria capacidade de desejar e criar.
A psicanálise contemporânea entende a psicoterapia como uma clínica da existência, voltada a ampliar a capacidade de viver, e não apenas a tratar distúrbios. Parafraseando Freud e Winnicott, pode-se dizer que a saúde mental não se define pela ausência de sintomas, mas pela capacidade de brincar, amar e trabalhar — ou seja, de viver criativamente em relação consigo, com o outro e com o mundo.
Líderes, empreendedores e executivos frequentemente padecem de sofrimentos silenciosos, associados ao excesso de responsabilidade, à idealização da competência e à solidão estrutural do poder. Essas dores afastam o sujeito da possiblidade de viver uma vida plena, e demandam escuta, simbolização e reapropriação subjetiva, e não diagnósticos.
“Enquanto modelos médicos buscam eliminar sintomas, a psicanálise busca compreender o que o sintoma quer dizer. Isso faz dela um instrumento poderoso para quem ocupa posições de liderança: o processo analítico restaura a capacidade de pensar sob pressão, de lidar com a incerteza e de sustentar decisões complexas sem perder o sentido interno”.
A psicoterapia psicanalítica não é apenas um tratamento — é uma ferramenta de desenvolvimento psíquico assistido, uma técnica de profundidade emocional que melhora não apenas o bem-estar individual, mas também a qualidade das relações, da escuta, da liderança e do ambiente corporativo como um todo. Em um mundo que valoriza métricas, velocidade e eficiência, ela oferece o que falta: tempo, palavra e sentido.
Mais do que curar, ela sustenta o sujeito diante de si mesmo. E, quando isso acontece, o desempenho deixa de ser apenas uma finalidade e torna-se expressão de um todo integrado e vivo.
Referências conceituais
Freud, S. (1930). O Mal-Estar na Civilização.
Freud, S. (1917). Luto e Melancolia.
Winnicott, D. W. (1960). O ambiente e os processos de maturação.
Bion, W. R. (1962). Aprender com a Experiência.
Ogden, T. (1994). Os sujeitos da psicanálise contemporânea.
Green, A. (1983). Narcisismo de vida, narcisismo de morte.
Comentários